Resenha do filme “The
Mission” de 1986.
A Missão é baseado em acontecimentos reais, ocorridos nas fronteiras entre a
Argentina, o Paraguai e o Brasil, por volta de 1750. Este filme, dirigido por
Roland Joffé e escrito por Robert Bolt, aborda de forma nítida a total entrega
do missionário jesuíta no intento de propagar a fé católica entre os índios.
Por outro lado, com a Companhia de Jesus, inicia-se a colonização europeia,
disciplinando e regulando os comportamentos sociais indígenas, interferindo
assim, no modo de ser do índio.
Após a morte de um padre que vivia entre os índios guaranis, irmão
Gabriel é designado à Missão de São Carlos, onde é aceito pelos indígenas
através de sua música e, também, pelo fato de ter como sua única arma a
“palavra de Deus”, arma esta, que não poderia agredi-los – ao menos não
fisicamente. Embora os jesuítas tivessem técnicas de contato para atrair os
índios e, aparentemente, apreendiam com certa facilidade a língua dos nativos,
percebe-se no filme que, a princípio, os ensinamentos eram de difícil
compreensão para os indígenas, tendo em vista que nem todos jesuítas agiam
conforme pregavam, ou seja, trabalhavam sob um sistema – eram membros de uma
ordem - e às vezes tinham que cumprir ordens que vinham na contramão daquilo
que ensinavam na fé Cristã.
Nesse período, Rodrigo Mendoza, até então um mercador de escravos, fica
com crise de consciência por ter matado seu irmão num duelo. Rodrigo tinha um
relacionamento com Carlotta e não aceitava o fato de seu irmão ter se envolvido
com ela. Para tentar se penitenciar Mendoza se torna um padre e se une a
Gabriel, um jesuíta bem intencionado que luta para defender os índios, mas
acaba se deparando com interesses econômicos. Juntamente com outros ‘irmãos’, Gabriel e Rodrigo iniciam os trabalhos
de evangelização com os índios que viviam naquela região da floresta, sobre a
cachoeira – Missão de São Carlos. O
ensino da música e a fabricação dos
instrumentos aparecem diversas vezes ao longo do filme. Na maioria delas são os
jesuítas que ensinam os indígenas a tocar seus instrumentos e a cantar da ‘sua’
maneira. A música é o ponto de aproximação, mas também de aprendizado da
cultura. Aprendizado, para os índios, da cultura e dos valores dos brancos e
dos jesuítas.
Cada homem e mulher daquela etnia podia ter apenas um filho, os demais
que viessem os próprios pais o matavam imediatamente. Fatos como este, eram
vistos como uma espécie de rito primitivo pelos europeus e eram usados como
argumentos entre portugueses e espanhóis para comparar os nativos a seres
selvagens, a ‘animais com voz humana’. Contudo, conforme percebemos na fala do
padre Gabriel, os guaranis matavam sim seus filhos, mas isso “é questão de
sobrevivência, pois só podem fugir com um filho no colo” – os indígenas fugiam
da escravidão, dos mercadores de escravos.
Os jesuítas tinham muito poder nas missões, fato esse que incomodava
portugueses e espanhóis. Para o marquês de Pombal, a Companhia constituía-se
num obstáculo à condução da sua política de reformas, bem como despertava
desconfianças dos governantes. Estavam assim criadas as condições para a
antipatia pombalina para com os religiosos desta Ordem. Pombal estava decidido
a destruir o poderio da igreja.
O final é trágico. Os jesuítas foram ordenados a saírem daquele
território ou seriam massacrados pelo exército dos colonos, como de fato
aconteceu - foram dizimados. De uma forma muito clara, esse filme relata a
cultura e a diversidade etnicorracial na América do Sul, além de toda uma
história de colonização e civilização em nosso país. Ao refletir sobre o filme,
percebemos que esta batalha continua hoje, pois
as marcas do discurso e das ações colonial estão impregnadas no
pensamento contemporâneo. Lutar contra isto deve(ria) ser uma tarefa da nação.
C.L.

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