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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A Missão




Resenha do filme “The Mission” de 1986.      

A Missão é baseado em acontecimentos reais, ocorridos nas fronteiras entre a Argentina, o Paraguai e o Brasil, por volta de 1750. Este filme, dirigido por Roland Joffé e escrito por Robert Bolt, aborda de forma nítida a total entrega do missionário jesuíta no intento de propagar a fé católica entre os índios. Por outro lado, com a Companhia de Jesus, inicia-se a colonização europeia, disciplinando e regulando os comportamentos sociais indígenas, interferindo assim, no modo de ser do índio.
Após a morte de um padre que vivia entre os índios guaranis, irmão Gabriel é designado à Missão de São Carlos, onde é aceito pelos indígenas através de sua música e, também, pelo fato de ter como sua única arma a “palavra de Deus”, arma esta, que não poderia agredi-los – ao menos não fisicamente. Embora os jesuítas tivessem técnicas de contato para atrair os índios e, aparentemente, apreendiam com certa facilidade a língua dos nativos, percebe-se no filme que, a princípio, os ensinamentos eram de difícil compreensão para os indígenas, tendo em vista que nem todos jesuítas agiam conforme pregavam, ou seja, trabalhavam sob um sistema – eram membros de uma ordem - e às vezes tinham que cumprir ordens que vinham na contramão daquilo que ensinavam na fé Cristã.
Nesse período, Rodrigo Mendoza, até então um mercador de escravos, fica com crise de consciência por ter matado seu irmão num duelo. Rodrigo tinha um relacionamento com Carlotta e não aceitava o fato de seu irmão ter se envolvido com ela. Para tentar se penitenciar Mendoza se torna um padre e se une a Gabriel, um jesuíta bem intencionado que luta para defender os índios, mas acaba se deparando com interesses econômicos. Juntamente com outros ‘irmãos’, Gabriel e Rodrigo iniciam os trabalhos de evangelização com os índios que viviam naquela região da floresta, sobre a cachoeira – Missão de São Carlos.  O ensino da música e a fabricação dos instrumentos aparecem diversas vezes ao longo do filme. Na maioria delas são os jesuítas que ensinam os indígenas a tocar seus instrumentos e a cantar da ‘sua’ maneira. A música é o ponto de aproximação, mas também de aprendizado da cultura. Aprendizado, para os índios, da cultura e dos valores dos brancos e dos jesuítas.  
Cada homem e mulher daquela etnia podia ter apenas um filho, os demais que viessem os próprios pais o matavam imediatamente. Fatos como este, eram vistos como uma espécie de rito primitivo pelos europeus e eram usados como argumentos entre portugueses e espanhóis para comparar os nativos a seres selvagens, a ‘animais com voz humana’. Contudo, conforme percebemos na fala do padre Gabriel, os guaranis matavam sim seus filhos, mas isso “é questão de sobrevivência, pois só podem fugir com um filho no colo” – os indígenas fugiam da escravidão, dos mercadores de escravos.
Os jesuítas tinham muito poder nas missões, fato esse que incomodava portugueses e espanhóis. Para o marquês de Pombal, a Companhia constituía-se num obstáculo à condução da sua política de reformas, bem como despertava desconfianças dos governantes. Estavam assim criadas as condições para a antipatia pombalina para com os religiosos desta Ordem. Pombal estava decidido a destruir o poderio da igreja.
O final é trágico. Os jesuítas foram ordenados a saírem daquele território ou seriam massacrados pelo exército dos colonos, como de fato aconteceu - foram dizimados. De uma forma muito clara, esse filme relata a cultura e a diversidade etnicorracial na América do Sul, além de toda uma história de colonização e civilização em nosso país. Ao refletir sobre o filme, percebemos que esta batalha continua hoje, pois as marcas do discurso e das ações colonial estão impregnadas no pensamento contemporâneo. Lutar contra isto deve(ria) ser uma tarefa da nação. 



C.L.

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