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quarta-feira, 17 de julho de 2013

O DELÍRIO


RESENHA:

ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Gráfica e Editora Edigraf S.A.: São Paulo – Brasil, p. 26-31.


Machado de Assis é, para uma grande parcela dos estudiosos da literatura brasileira, o maior escritor do Brasil. O seu trabalho abrange quase todos os gêneros literários, mas são, sobretudo, os seus romances e contos que merecem maior destaque. Uma das mais importantes de suas obras, Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicada em 1881, é considerada o primeiro romance realista escrito em território nacional, bem como a primeira narrativa fantástica da literatura brasileira.
O Delírio, capítulo VII desse livro e cujo texto resenha-se aqui, tem como personagem principal e narrador, um morto - Brás Cubas. Assim como o restante da obra, o delírio do narrador é descrito de uma forma cômica e irreverente. A história é uma viagem cheia de surpresas, do início ao fim.
 Antes de expor a alucinação que teve durante alguns minutos, Brás Cubas inicia o seu relato advertindo o leitor para pular o capítulo, caso não tenha interesse em confusões mentais, tal como sugere o título. Dessa forma, o leitor é atraído facilmente pela curiosidade.
Na sequência, temos a primeira metamorfose desse narrador desvairado. Ele se vê como um barbeiro chinês, barbeando um mandarim. Logo depois, transforma-se na Suma Theológica, de São Tomás de Aquino, livro básico do pensamento cristão na idade média. Nessa condição, Brás Cubas sente-se imóvel, mas permanece assim por pouco tempo.
Enviado de volta à forma humana, se depara com um hipopótamo, o qual subitamente o leva. Seguem então, em silêncio, até que ele resolve questionar o animal sobre o destino da viagem. Para sua surpresa, o hipopótamo responde, dizendo que seguem rumo à origem dos séculos. Interessado no fato do animal falar, pergunta-lhe “se era descendente do cavalo de Aquiles ou da asna de Balaão” e o animal responde “com um gesto peculiar a estes dois quadrúpedes: abanou as orelhas”.
A pergunta justifica-se pelo fato de que o cavalo Xanto, dotado de fala, anuncia a morte de Aquiles em Ilíada e a asna de Balaão, por sua vez, também podia falar, visto que adquiriu esse ‘poder’ para converter Balaão, segundo relatos da Bíblia (NÚMEROS, 22:28).
De olhos fechados, Brás segue a aventura, a galope, montado no hipopótamo. Sem ver o caminho, enquanto o devora e sem “saber onde ficava a origem dos séculos”, seu “cérebro de enfermo” não para e ele tem sensações distintas o tempo todo, até que o animal para bruscamente. Então ele abre os olhos e lhe aparece um enorme vulto, de uma figura feminina, “de olhos rutilantes como o sol” (p. 34).
Após um período de silêncio, ele perguntou “quem era e como se chamava”. “Natureza ou Pandora”, ela responde.
Segundo o mito grego, Pandora é a primeira mulher. Foi criada por Hefesto, ordenado por Zeus, que deu a ela uma caixa que continha todos os bens e males. Epimeteu, foi o primeiro homem que casou-se com ela, bem como foi o responsável por espalhar todos os bens e males sobre o mundo, após abrir a caixa; restando assim, somente a esperança, no fundo da mesma.
Continuando no encontro do alucinado com Pandora, estabeleceram ali,  um diálogo. O narrador relata que sempre que a Natureza pronunciava uma palavra, produzia “o efeito de um tufão” e quase tudo o que ela dizia era a ele motivo de espanto. Cheia de indagações, a conversa se estendeu, até que ela o levou para uma contemplação, ao alto de uma montanha, e eis que:

Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim, - flagelos e delícias, - desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo (p. 36).


E assim o maluco morto continuou vendo a passagem dos séculos e “cada século trazia a sua porção de sombra e de luz” (p. 37), até avistar o último, que passou como um relâmpago e, por isso, mal pôde compreender. Tudo ao seu redor foi se transformando, e o hipopótamo que o levou até ali, começou a “diminuir, até ficar do tamanho de um gato” (p. 38).
O texto é repleto de elementos filosóficos, como: o tempo, as transformações contínuas que envolvem a principal personagem, a vida, as mudanças sofridas por ela entre tantas outras. Temos ainda outra marca importante dessa narrativa, característica do Machado, são as constantes referências a outros grandes autores, sobretudo, às obras que tratam da mitologia grega.
Diferentemente dos gregos que criaram os mitos como uma forma de interpretarem o mundo, mesmo sem ter clareza sobre o tempo, Brás, por meio do seu delírio pôde conhecer o mundo, passear pelo tempo e ver o ‘caos’ no início dos séculos. Assim, prende-se a um universo que nega a sua realidade.
Lendo Brás Cubas, lembrei-me do ‘super-homem’, descrito por Nietzsche em Assim Falou Zaratustra, o homem que parte da afirmação da morte, “que se supera, que se inventa no presente”, capaz de ler a si próprio e lidar a todo o instante com os conflitos que o cerca.
O delírio de Brás Cubas, entretanto, se faz digno de atenção por diversos motivos, entre eles o fato de que o mundo da alucinação vai além do mundo em que vivemos, pois, existe outro mundo que é determinado pela ideia e pelo pensamento.


Referências:
HOUAISS, Antonio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo: Objetiva, 2011.
Bíblia Online. Disponível em: < http://www.bibliaonline.com.br/acf/nm/22. > Acesso em 06/10/2012.
Pandora. Disponível em: < http://www.sohistoria.com.br/ef2/mitologiagrega/p1.php. > Acesso em 06/10/2012.



C. L.

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